Jornalismo nunca foi tão necessário

Para presidente da RBJA, “o jornalismo nunca foi tão necessário quanto agora”

Mesmo com as perdas e mudanças enfrentadas na comunicação, no mundo todo, a importância do jornalismo e do jornalista como testemunha do seu tempo cresce, num ambiente hostil. É preciso reagir, sem medo, em prol da democracia

Por Fernando Salles

A frase acima foi dita pelo jornalista Dal Marcondes, presidente da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA), durante debate de abertura do Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental 2019 (CBJA), realizado em agosto, por dois dias, em São Paulo.

A mesa de abertura reuniu representantes de algumas das principais entidades representativas dos jornalistas. Os participantes foram unânimes ao manifestar grande preocupação com a postura de ataque à imprensa, ao meio ambiente e à ciência, adotada pelo atual governo.

Uma maior união entre as entidades foi defendida por Dal Marcondes como forma de fortalecer a categoria, ainda mais neste período conturbado. “Jornalismo é militância mas, acima de tudo, é profissão. Com nosso trabalho, precisamos entregar conhecimento ao público, mas também levar pão à nossa mesa”, resumiu o membro do Conselho da APJor – Associação Profissão Jornalista. Fez questão de frisar, ainda, que o jornalismo é o instrumento que a sociedade tem para atravessar esse momento de informações falsas e superar a neblina informativa que encobre o olhar da sociedade.

Em meio a esse turbilhão, há pelo menos uma boa notícia. “Em nenhum momento tivemos tantas possibilidades de fazer o bom jornalismo, por meio de recursos tecnológicos que estão disponíveis para todos”, destacou Dal Marcondes.

Fred Ghedini aproveitou a ocasião para apresentar o trabalho da APJor – entidade da qual é presidente – ao público de jornalistas e ambientalistas que lotou o auditório do Unibes Cultural. A associação defende a retomada do debate sobre a criação de um conselho profissional focado nas características da profissão, na discussão sobre o exercício do jornalismo e nas questões éticas. “Debater cotidianamente a profissão é uma necessidade, e a APJor existe para incentivar isso”, afirmou.

A chapa recém-eleita na ABI (Associação Brasileira de Imprensa), que traz a esperança da volta do protagonismo da entidade na defesa da democracia e da liberdade de expressão, foi representada no debate por Ricardo Carvalho, que colocou a associação à disposição da causa ambiental e dos esforços de proteção aos profissionais que estão na ponta, divulgando práticas nocivas no país que mais ameaçam jornalistas ambientais em todo o mundo.

Ricardão, como é mais conhecido, fez duras críticas às recorrentes agressões ao meio ambiente por parte do presidente Jair Bolsonaro, mas lembrou que um alento é o fato de que as declarações “malucas” do chefe do executivo brasileiro acabam por atrair a atenção de mais pessoas para a causa da defesa ambiental.

“O atual governo é inimigo do jornalismo, do meio ambiente e também dos sindicatos”, fez questão de lembrar Paulo Zocchi, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo, ao defender a sindicalização por parte dos profissionais como uma das formas de fortalecer toda a categoria. “Nossa luta como entidade sindical é para proteger, ao máximo, as condições de vida e de trabalho do jornalista. O Sindicato está aberto a se unir com todas as entidades do segmento pela defesa da nossa profissão e do bom jornalismo”, afirmou

Em ampla abordagem sobre a crise do jornalismo como negócio, Zocchi lembrou que a legislação brasileira limita a 30% a participação do capital estrangeiro nas empresas de comunicação. No entanto, companhias globais como Google e Facebook não se sujeitam a essa regra por serem classificadas na área de tecnologia. Na prática, concorrem de forma desleal com as empresas brasileiras de comunicação e acabam por ajudar a causar em parte da sociedade a falsa ideia de que basta acessar redes sociais para se manter bem-informado.

O resultado dessa equação tem sido redução de custos pelas empresas, enxugamento das redações e precarização da profissão, apesar dos esforços do Sindicato em mostrar para as empresas a necessidade de agir no Congresso Nacional para se proteger de plataformas que se apropriam de material jornalístico sem pagar nada por isso. “Nos anos 1990, 40% da receita das empresas era destinada à produção jornalística. Hoje, esse percentual é de apenas 7%”, completou Dal Marcondes, exemplificando o impacto das plataformas digitais no negócio jornalístico. “O dinheiro não acabou no mundo, mas falta para nós. A proposta é que nós, como jornalistas, negociemos com o Google e o Facebook”, sugeriu Fred Ghedini, presidente da APJor.

A mesa de discussão também contou com a participação de André Biernath, que destacou o processo de criação da Rede Brasileira de Jornalistas de Ciência, da qual é presidente, e de Samyra Crespo, cientista social, ambientalista e pesquisadora, para quem há uma urgência em tornar conhecidas da sociedade as pessoas – jornalistas ou não – que defendem a causa ambiental. “Ninguém sabe quem nós somos, e por isso não podem confiar. É preciso falar dos nossos”, resumiu.

*Fernando Salles é jornalista e associado da APJor

Publicado originalmente no site da APJor em 20 de agosto de 2019
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A Associação Profissão Jornalista – APJor é uma organização nascida do Movimento Jornalistas Pró-Conselho, criada na assembleia de 22 de outubro de 2016, na Câmara Municipal de São Paulo, com a presença de 40 jornalistas.

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